A Indiferença Também Mata

Carlos Gama



Apaixonara-se por suas características incomuns e por sua beleza exótica, no primeiro instante em que a vira, linda e resplandecente no jardim daquele palácio oriental. Seu único objetivo, a partir daquele momento foi tê-la para si, mesmo que isso exigisse empenho total e o pagamento de qualquer preço. O uso dos contatos políticos, das amizades e os valores despendidos valeram a pena, pois, finalmente aquela raridade estava em sua companhia, longe daquele palácio e a caminho de sua casa.

A posse dela fazia com que sua alegria não tivesse limites e seu entusiasmo crescente induzia a receber sempre mais convidados, apenas para exibi-la.

Foi assim, como geralmente acontece, que ela passou a ser o objeto do despertar dos desejos de muitos dos que a viam e admiravam os seus encantos invulgares. Ela era o assunto principal das conversas de quem a conhecesse e o orgulho de quem a possuíra.

Linda, minha linda! - dizia ela, sempre, ao passar ao lado vaso que continha aquela maravilha da natureza e que era o encanto, a razão da admiração e assombro das pessoas que freqüentavam a casa.

O tempo foi passando e, como só acontece no mundo dos humanos, tudo aquilo que se busca visando apenas a beleza exterior, a satisfação das vaidades e do orgulho acaba perdendo aos poucos o encanto e diminuindo o entusiasmo do possuidor.

Com as visitas freqüentes, os novos amigos, outras distrações surgiram e a tão almejada plantinha, com suas pequenas flores e seu perfume suave foi ficando esquecida, sozinha, descuidada, perdendo o exotismo e o brilho mas, ainda assim ornamentando a sala, agora vazia.

A dona da plantinha enveredou por outros caminhos, buscou a satisfação de outros desejos, mas um dia voltou à realidade, lembrou-se daquele seu bem e de todo o trabalho e empenho que tivera para obtê-lo. Retornou à sala, alegre e sorridente, com a intenção de conversar e de dirigir novamente palavras carinhosas à sua plantinha, mas encontrou-a murcha e sem vida.

As lágrimas escorriam pelas suas faces e ela buscou no fundo da alma as palavras mais meigas, mais doces, na tentativa de reviver a plantinha sem, no entanto, conseguir seu intento.

Assim acontece com muitos de nós, pela vida afora; quando percebemos o resultado da desatenção, do pouco caso com que cuidamos de algumas plantas, tentamos fazê-la despertar, mas é tarde, ela está morta.


                                                  
 11 de julho de 2006.




"Carlos Gama nasceu em São Paulo, capital, às 14,20 hs de um domingo, 29 de setembro de 1946. Os escritos, especialmente as crônicas de cunho político e social, sem deixar da poesia, fazem parte de seu dia-a-dia. Caminha por eles, assim como viaja pelas estradas - montado em sua motocicleta - realizado e em paz com o mundo".

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